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Os erros que muitos médicos, advogados e terapeutas cometem: a “boa” intenção de ajudar e o desejo oculto de controlar o destino do outro

Por Alice Duarte

dia-do-médico-34 Ontem num grupo de Constelação Familiar, uma jovem médica expôs algo que a incomodava bastante: uma forte ansiedade, sensação que vinha lhe tirando a confiança no trabalho com seus pacientes. Não sabia se o que fazia estava certo ou errado, ou se podia ter feito algo mais. Quando começou a falar do peso que vinha carregando nos ombros, decorrente da responsabilidade de suas decisões sobre a vida de seus pacientes, ela começou a chorar. E disse que no fundo sabia que a ansiedade e a insegurança que sentia não era racional. E de fato não era. Por trás havia algo mais profundo, que é uma cilada que muitos profissionais dessa área caem: a “boa” intenção de ajudar.

Para esclarecer como essa dinâmica funciona, foi colocado na Constelação um representante para a médica (com essa intenção de ajudar) e um representante para os pacientes dela. O representante dela se empoderou diante do representante dos pacientes, enquanto ele virou de costas porque não suportava a pressão e a exigência que vinha de seu olhar.

A pessoa que tem a “boa” intenção de ajudar também tem a necessidade de controlar.

Ela acha que no fundo tem o poder sobre o destino do outro e a responsabilidade de “consertar” os fatos e as pessoas. Tem a ilusão de achar que se não fizer algo naquele momento para aquela pessoa, se não estiver ali para olhar e cuidar de tudo, as coisas não irão se resolver. Essa necessidade de querer controlar tudo também esconde uma falta de fé nos mistérios da vida (em Deus, no Universo, como quiser chamar) e na capacidade de autorregulação e equilíbrio da Natureza.

Bert Hellinger, filósofo criador da Constelação Familiar, certa vez fez uma afirmação bastante forte: os médicos morrem cedo. Essa constatação tem a ver com a “boa” ajuda. Explico melhor a seguir. Muitas vezes a doença é um portal para o autoconhecimento, para olhar algo que estava oculto, para se libertar de algum sofrimento, de curar algo no nível profundo da alma. E quando alguém tira da pessoa a oportunidade de aprendizado que ela teria por conta própria, impede assim que uma lei natural aja sobre ela. Como colocou de maneira muito clara o escritor e terapeuta Bruno Gimenes, se a pessoa teve uma ajuda externa, mas não mudou a consciência e a postura interna diante da vida, esta energia de mudança que era necessária para aquela pessoa acaba se voltando para quem a ajudou. Então por isso, quem ajuda experimenta um sofrimento que não era seu. Fica emaranhada com o outro – como dizemos na linguagem das Constelações. E se desvitaliza. Essa mesma dinâmica também se observa nos profissionais que trabalham com a ajuda e com o destino das pessoas, como psicólogos, terapeutas e advogados.

A verdadeira ajuda é ajudar sem ajudar.

A frase parece um paradoxo, não? Mesmo que alguém peça ajuda, é necessária muita sabedoria para entender qual é o jeito certo de ajudar. O caminho para isso passa por uma mudança de postura interna. Um novo jeito de olhar a vida. Exige um aprender a soltar, a entregar o problema a uma força maior que a sua – e confiar. Para o caso dessa médica, significa ajudar sabendo que por trás daquela doença apresentada pelo paciente há um mistério, algo maior, que pode ser um reflexo ou resultado de alguma desordem na história de vida daquela pessoa ou do sistema a que pertence. É necessário aprender a respeitar tudo isso e se colocar, internamente, na postura de: “Eu sou muito pequena diante de tudo isso”, “Isso tudo é muito maior que eu.”

Então, como médico, advogado ou terapeuta, o aprendizado está em saber até onde se pode interferir e ajudar. Fazer o que está ao seu alcance como profissional e sair, virar as costas e deixar o que é do paciente com o paciente. Os médicos que já se aposentaram sabem do que eu estou falando.

“Ajudar é ajudar sem ajudar.”

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// @AliceDuarte

5 pensamentos em “As ciladas da ajuda

  1. o profissional ajuda quando leva o cliente a ter insite sobre sua vida, seu problema e as conecçoes que elas apresentam, (padrão no comportamento que levou ao problema etc) .
    Dar soluções e o que o cliente precisa pra continuar a ter culpados de suas insatisfações.

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  2. Muito bom o texto, bem depois de um semana difícil em que atendi uma pessoa que está tendo dificuldade de se encontrar. É realmente muito importante ajudar a pessoa a se ajudar e não pegar o problema para si, como se a responsabilidade deixasse de ser o cliente e passasse a ser do, no meu caso, terapeuta. Por isso tenho direcionado o meu atendimento ao ensino de técnicas de autoaplicação. Sendo assim a pessoa torna-se melhor preparada para lidar com seus conflitos, proporcionando assim a sua evolução.

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  3. Excelente texto, encaixou perfeitamente em um atendimento de família, que atendo. Uma família com pais idosos e filhos adultos, onde o bode expiatório é o filho mais velho. Quando trabalhamos o sistema como um todo, e num trabalho circular expomos o problema para que ele saia de um e vai para o outro, a gente ajuda a família a se olhar, desconstruindo todo aquele conceito de que um é o demônio e os demais são anjos sofredores.Quando um está doente a família adoece e sofre juntos, não tem como escapar. A pessoa não é o problema, o problema é o problema. E nós enquanto terapeutas precisamos ajuda-los a encontrar outras formas, outras possibilidades de sair daquele funcionamento, que eles trazem como sofrimento. Claro que como somos gente também e temos sentimentos ficamos muitas vezes sensibilizados em algumas situações que mexem com nós, por isso precisamos estar sempre nos supervisionando, na nossa terapia individual.
    Parabéns pelo Texto.

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